quinta-feira, 20 de maio de 2010



Desventuras de um rato.

Era um dia como outro qualquer, a não ser pelo fato de que resolvi me aventurar à luz do dia pela rua; sempre fui meio abusado, ou melhor, dizendo, sempre tive espírito aventureiro. E sempre me disseram que isto ainda ia me custar caro.
Saí pelo bueiro da calçada, porta comum entre o nosso mundo sujo dos esgotos, e a tão almejada rua; com seus odores e ruídos tão atrativos quanto temidos pra mim.
Eu e meus companheiros só nos aventurávamos no escuro da noite, mas não é a mesma coisa.
Tomei coragem, respirei fundo e saí correndo a atravessar a rua. Por entre pés e pernas que quase não me notaram. Cheguei ao outro lado; fiquei quieto num canto, observando, calculando o risco. Passado o primeiro momento, já não achava tão perigoso como haviam me dito. Acreditei até que as pessoas tinham me visto, apenas não se importaram com a minha presença; resolvi dar mais uma volta, dessa vez mais devagar, de um a outro canto; ainda com receio, me esgueirando.
Passei por toda a calçada de uma esquina a outra; agora mais confiante certo de que não se importavam comigo. Até que alguém gritou:
-Aiiiii..., um rato; um rato enorme!!!
Era uma mulher grande e desengonçada que apontava pra mim com pavor; mas eu nada tinha feito pra ela estar assim, nem cara feia eu fiz.
Não demorou para que algumas as pessoas estivessem olhando pra mim como que me culpando, outras com raiva. Mas de que se eu nada tinha feito contra ninguém, só estava passeando. Não mordi, não arranhei, não roubei nada; nem um pedacinho daqueles biscoitos que cheiravam tão gostoso perto da onde eu havia me escondido primeiro; e seria tão fácil já que eu estava no cantinho ao lado da caixa onde eles estavam.
Então porque eles me olham desse jeito? Por que tanta agressividade?
Eu mal acabei de pensar e logo veio um pé não sei de onde quase me acertando, passou tão perto que no susto eu saí correndo em meio aquela gente que se ajuntava ou fugia. Olhando-me como se eu fosse um monstro, eu? Logo eu que sempre me achei ate bonitinho! Eu que sou tão pequeno em relação a essas pessoas tão hostis e assustadas.
Outro tentou me chutar, eu esquivei; depois outro e mais outro. Eu fugia desesperado, o próximo me acertou de raspão e eu fiquei desnorteado; nesse meio tempo quase levei uma paulada de um homem.
Eu procurava sem achar o bueiro de onde eu saí, fugindo da agressão sem motivo e da histeria daquela gente.
Eu já estava cansado e toda hora me acertavam de raspão, ate que um me acertou em cheio, tão forte que eu quase desmaiei, mas por sorte com a pancada acabei caindo ao lado do meu tão querido bueirinho. Juntei minhas ultimas forças e entrei como uma flecha; jurando pra mim mesmo que de lá eu nunca mais ia sair.
Logo que entrei deixei-me cair de lado, eu sentia muita dor, e ainda ouvia o burburinho que vinha lá de fora, daquela gente ruim que tanto me maltratou, por nada; eu só queria dar um passeio, ver a luz do dia, sentir o vento, não fiz nem queria fazer mal a ninguém.
Só queria entender porque fizeram isso comigo, o que tinha de mal eu passear; será que eles não gostam que andem na calçada deles? Será que eles são assim tão egoístas e preconceituosos?
Também não entendi por que algumas daquelas pessoas tinham a expressão de medo no rosto; medo! Logo de alguém tão pequeno como eu. Acho que essas respostas eu nunca vou ter; e agora eu só quero mesmo é dormir, pra ver se essa dor passa; junto com a vergonha de ter sido tão humilhado e destratado por nada.
Eu prometo a mim mesmo que nunca mais piso no mundo dos homens; mundo cruel e sem sentido, vai ver eles fizeram isso com todos os bichos. Quem sabe ate com eles mesmos; com tudo o que é diferente.
Se for assim eu prefiro meu esgoto, que não é tão bonito; é ate bem feio, escuro e fedorento; mas pelo menos aqui não tratamos os outros feito animais.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Abandono
Quero que caia a noite com seu manto negro trespassado de estrelas de fulgor luzidio,e seu branco lume de luar sereno a repousar em teus braços cândidos, o pensamento cálido de paixões a esperar.
Esperar que chegue o outro a quem vai se apaixonar à primeira vista ou a cabo do estar mais junto de ti.
Consigo pela primeira vez todo dia ,do seu sonhar de todo dia ,a cada dia que se faz passar; apressado como cada momento bom.
Tanto te quero ter aqui comigo e além de mim como se fosse onírico ,és onipresente em todo segundo que compõem o meu dia.E mais e tanto nas horas vãs, em que me perco sozinho, sem o som da sua voz a me guiar  pelo escuro que vejo ao meu redor quando não é a ti que enxergo. 
Me relego a fardo-dádiva de ser teu rei,teu escravo; ordenando que me ame para que eu possa fazer-lhe os caprichos e te levar ao meu reino para lhe coroar minha mulher.
Rotação
Os dias parecem que passam apressados,não os sinto.
As pessoas que passsam apagadas e em vão,não as vejo.
As músicas que não falam mais do grande amor,não as ouço.
O mundo parece que pára, não mais roda ,não há iniciativas,
inovações ou ideais.Onde foi parar o desejo do porvir?!
Tudo o que vem de agora são grotescas imitações de outrora;
São amores vagos sem paixão;
São revoltas sem ideais;
São vontades sem iniciativa.
Em vez de me perguntar onde o mundo vai parar,
tenho vontade de saber quando ele vai voltar a girar.

                                                    Cotidiano do Eu

Alguma coisa sutil ,quase uma perfídia, parece pairar na brisa do leste.Algum desejo icógnito,até mesmo inconsciente , que se adensa a cada lua.
E eu o sinto como um arrepio frio que me inquieta e me tira o sono.E na escuridão das altas horas, ouço sussurros inteligíveis dos segredos que não me cabem enquanto me perturbam sonhos de vigília obscuros e sem sentido.
Parece que se fecha um cerco ao meu redor e me sinto acuado por grades que não posso ver. Mas posso senti-las ao longe, altas demais para que eu possa transpôr-las e por bem demais fundadas para que eu derrube o que não posso ver.
Isolado e com medo, vou me tornando esquivo e embrutecendo; cada vez mais taciturno, e orgulhoso demais para demonstrar qualquer sinal que denuncie meus anseios.
Agora nada me passa despercebido, guardo cada reminiscência que me possa ser útil no futuro ,que não muito distante e talvez mais breve do que imagino, que acabara por me trazer um embate calculado e metódico a guisa de me dominar. Seria mais fácil matar-me, pois ,o cerco só me instiga a ira que cozinho em fogo brando, enaltecendo com esse banquete, minha alma altiva que construí de mim, para mim e por mim mesmo.